28 fevereiro 2011

Nirvana

Quisera ficar a teu lado
No grande êxtase pacífico
Do nosso silêncio.
Continuar indefinidamente
O diálogo mudo dos nossos olhos.
Quisera Diluir-me em ti como um aroma no vento, como dois rios que fundem suas águas
No abraço do mesmo leito E correm para o mesmo destino...
Somos duas árvores solitárias
Que entrelaçam suas ramas: à mesma brisa estremecem,
florescem,
envelhecem e morrem...

Menotti Del Picchia

25 fevereiro 2011

Posso escrever os versos mais tristes...


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".  O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta, tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho.
Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo.
Ao longe alguém canta.
Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
Outro.
Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro.
Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços, a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

P.Neruda

24 fevereiro 2011

Aceitarás o amor

Aceitarás o amor como eu o encaro ?…
Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada.
Não desejo também mais nada,
só te olhar, enquanto a realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza… a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições.
O encanto que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade

22 fevereiro 2011

Vale a pena investir....

Vale a pena investir em relações falidas??

Não quero defender as relações falidas e que só fazem mal, nem estou sugerindo que as pessoas insistam em sentimentos que não são correspondidos, em relacionamentos que não são recíprocos, mas quero reafirmar a minha crença sobre o quanto considero válida a coragem de recomeçar, ainda que seja a mesma relação; a coragem de continuar acreditando, sobretudo porque a dor faz parte do amor, da vida, de qualquer processo de crescimento e evolução.
Pelas queixas que tenho ouvido, pelas atitudes que tenho visto, pela quantidade de pessoas depressivas que perambulam ocas pelo mundo, parece que temos escolhido muito mais vezes o “nada” do que a “dor”.
Quando você se perguntar “do que adianta amar, tentar, entregar-se, dar o melhor de mim, se depois vem a dor da separação, do abandono, da ingratidão?”, pense nisso: então você prefere a segurança fria e vazia das relações rasas?
Então você prefere a vida sem intensidade, os passos sem a busca, os dias sem um desejo de amor?
Você prefere o nada, simplesmente para não doer?
Não quero dizer que a dor seja fácil, mas pelo amor de Deus, que me venha a dor impagável do aprendizado que é viver.
Que me venha a dor inevitável à qual as tentativas nos remetem. Que me venha logo, sempre e intensa, a dor do amor...
Prefiro o escuro da noite a nunca ter me extasiado com o brilho da Lua...
Prefiro o frio da chuva a nunca ter sentido o cheiro de terra molhada...
Prefiro o recolhimento cinza e solitário do inverno a nunca ter me sentido inebriada pela magia acolhedora do outono, encantada pela alegria colorida da primavera e seduzida pelo calor provocante do verão...
E nesta exata medida, prefiro a tristeza da partida a nunca ter me esparramado num abraço...
Prefiro o amargo sabor do “não” a nunca ter tido coragem de sair da dúvida...
Prefiro o eco ensurdecedor da saudade a nunca ter provado o impacto de um beijo forte e apaixonado... daqueles que recolocam todos os nossos hormônios no lugar!
Prefiro a angústia do erro a nunca ter arriscado...
Prefiro a decepção da ingratidão a nunca ter aberto meu coração...
Prefiro o medo de não ter meu amor correspondido a nunca ter amado ensandecidamente.
Prefiro a certeza desesperadora da morte a nunca ter tido a audácia de viver com toda a minha alma, com todo o meu coração, com tudo o que me for possível...
Enfim, prefiro a dor, mil vezes a dor, do que o nada...
Não há – de fato – algo mais terrível e verdadeiramente doloroso do que a negação de todas as possibilidades que antecedem o “nada”.
E já que a dor é o preço que se paga pela chance espetacular de existir, desejo que você ouse, que você pare de se defender o tempo todo e ame, dê o seu melhor, faça tudo o que estiver ao seu alcance, e quando achar que não dá mais, que não pode mais, respire fundo e comece tudo outra vez...
Porque você pode desistir de um caminho que não seja bom, mas nunca de caminhar...
Pode desistir de uma maneira equivocada de agir, mas nunca de ser você mesmo...
Pode desistir de um jeito falido de se relacionar, mas nunca de abrir seu coração...
Portanto, que venha o silêncio visceral que deixa cicatrizes em meu peito depois das desilusões e dos desencontros... Mas que eu nunca, jamais deixe de acreditar que daqui a pouco, depois de refeita e ainda mais predisposta a acertar, vou viver de novo, vou doer de novo e sobretudo, vou amar mais uma vez... e não somente uma pessoa, mas tudo o que for digno de ser amado!


Este texto é da Rosana Braga
Escritora, Jornalista e Consultora em Relacionamentos Palestrante
e Autora dos livros "Alma Gêmea - Segredos de um Encontro" e "Amor - sem regras para viver", entre outros. Já tinha inserido este texto um tempo atrás. Um amigo me falou sobre isto ontem e achei pertinente reapresentá-lo, pois com certeza, será de grande valia para quem ja conhece e para os que o leram pela primeira vez.

21 fevereiro 2011

Sonhos perdidos

Sonhos perdidos
Despertos, esquecidos
Sonhos insanos, cruéis.
Falecidos
Sonhos milionários
Simples, modestos
Sonhos sinceros e complexos
Sonhos escondidos
Por trás de um disfarce
Que se revelam no vermelho da face
Deslocam-se por multi-classes
Sonhos perdidos
Encontrados em abrigos
Sonhos tão certos e tão indecisos!



Nandha Franklin

Aqui eu te amo!!!

Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante. Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,  que correm pelo mar rumo a onde não chegam. Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho.
E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.

Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento, querem cantar o teu nome,  com suas folhas de cobre.

Pablo Neruda

18 fevereiro 2011

É assim que te quero, amor.

É assim que te quero, amor, assim, amor, é que eu gosto de ti, tal como te vestes e como arranjas os cabelos e como a tua boca sorri, ágil como a água da fonte sobre as pedras puras, é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine, mas antes que não me falte em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde vem nem para onde vai, apenas quero que a luz alumie, e também não peço à noite explicações, espero-a e envolve-me, e assim tu pão e luz e sombra és.
Chegastes à minha vida com o que trazias, feita de luz e pão e sombra, eu te esperava, e é assim que preciso de ti, assim que te amo, e os que amanhã quiserem ouvir o que não lhes direi, que o leiam aqui e retrocedam hoje porque é cedo para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas uma folha da árvore do nosso amor, uma folha que há-de cair sobre a terra como se a tivessem produzido os nosso lábios, como um beijo caído das nossas alturas invencíveis para mostrar o fogo e a ternura de um amor verdadeiro.



Pablo Neruda

17 fevereiro 2011

Cada Lugar Teu

Sei de cor cada lugar teu atado em mim, a cada lugar meu tento entender o rumo que a vida nos faz tomar;
tento esquecer a mágoa;
guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim, protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou, sem ter defesas que me façam falhar nesse lugar mais dentro, onde só chega, quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói como se arrancassem tudo o que já foi e até o que virá e até o que eu sonhei;
diz-me que vais guardar e abraçar tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos e o mundo nos leve pra longe de nós e que um dia o tempo pareça perdido e tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu ancorado em cada lugar meu e hoje apenas isso me faz acreditar que eu vou chegar contigo onde só chega quem não tem medo de naufragar.

Mafalda Veiga

16 fevereiro 2011

Você é

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra.
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.
Você não é só o que come e o que veste.
Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.

Martha Medeiros

15 fevereiro 2011

Saudade

"Saudade é solidão acompanhada,  é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade, aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido..."

Pablo Neruda

14 fevereiro 2011

Amar....

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que,  na brisa marinha, é sal, ou precisão de  amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,  o que é entrega ou adoração expectante,  e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor,  um chão de ferro, e o peito inerte,  e a rua vista em sonho,  e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,  distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,  doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na  concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,  e na secura nossa amar a água implícita,  e o beijo tácito, e a sede infinita.



Carlos Drummond de Andrade

11 fevereiro 2011

Falando de saudades ...

Falando de saudades ...
Ah! A minha é sempre pulsante
Às vezes , deixa-me triste, pensativa
Mas também , leva-me ao êxtase ...
Traz-me de volta os amigos,
A família, os amores
O coração acelera
A felicidade impera
Aí ... Sou toda paixão
Emoção, coração .
Falando de saudades ...
Momentos que marcaram
Que se eternizaram
Rabiscos, rascunhos
O sonho colorido
Às vezes desbotado
A primeira namorada
O primeiro beijo
A primeira vez ...
Ah! É bom lembrar !
Sentir saudades ...
E bom viver !!!


Sandra Lamego

10 fevereiro 2011

Pés na estrada

Ontem chorei.
Por tudo que fomos.
Por tudo o que não conseguimos ser.
Por tudo que se perdeu.
Por termos nos perdido.
Pelo que queríamos que fosse e não foi.
Pela renúncia.
Por valores não dados.
Por erros cometidos.
Acertos não comemorados.
Palavras dissipadas.
Versos brancos.
Chorei pela guerra cotidiana.
Pelas tentativas de sobrevivência.
Pelos apelos de paz não atendidos.
Pelo amor derramado.
Pelo amor ofendido e aprisionado.
Pelo amor perdido.
Pelo respeito empoeirado em cima da estante.
Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa.
Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados.
Pela culpa.
Toda a culpa.
Minha.
Sua.
Nossa culpa.
Por tudo que foi e voou.
E não volta mais, pois que hoje é já outro dia.
Chorei.
Apronto agora os meus pés na estrada."

Caio F. Abreu

09 fevereiro 2011

Duas bolas, por Favor

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido. Uma só.
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').
Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta./
Tem vontade de ficar em casa vendo um dvd, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar./
E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...
Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.
Um dia a gente cria juízo.
Um dia...
Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate...
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

Danuza Leão

08 fevereiro 2011

Sina.

Quando eu era menina,
a verdade parecia estar nos livros: ali moravam as respostas e nasciam os nomes.
Quanto mais procurei, mais me perdi na trilha das indagações: as respostas não vinham, a verdade era miragem, a busca era melhor que a descoberta, e nunca se chegava.
(Viver era mesmo sentir aquela fome.)


Lya Luft

07 fevereiro 2011

O céu e o Inferno

Conta-se que, certo dia, um samurai, grande e forte, conhecido pela sua índole irascível, foi procurar um sábio monge em busca de respostas para suas dúvidas.
-- Monge, disse o samurai com desejo sincero de aprender, ensina-me sobre o céu e o inferno.
O monge, de pequena estatura e muito franzino, olhou para o bravo guerreiro e, simulando desprezo, lhe disse:
-- Eu não poderia ensinar-lhe coisa alguma, você está imundo. Seu mau cheiro é insuportável. Além do que, a lâmina da sua espada está enferrujada. Você é uma vergonha para a sua classe.
O samurai ficou transtornado. O sangue lhe subiu à cabeça e ele não conseguiu dizer nenhuma palavra, tamanha era sua raiva.
Com os olhos crispados, empunhou a espada, ergueu-a sobre a cabeça e se preparou para decapitar o monge.
-- "Aí começa o inferno", disse-lhe o sábio mansamente.
O samurai ficou imóvel.
A sabedoria daquele pequeno homem o impressionara.
Afinal, arriscarra a própria vida para lhe ensinar sobre o inferno. O ferroz guerreiro abaixou lentamente a espada e agradeceu ao monge pelo valioso ensinamento. O velho sábio continuou em silêncio. Passado algum tempo o samurai, já com o ânimo pacificado, pediu humildemente ao monge que lhe perdoasse o gesto infeliz.
Percebendo que seu pedido era sincero, o monge, então, lhe falou: "Aí começa o céu".
Para nós, resta a importante lição sobre o céu e o inferno que podemos construir em nosso próprio íntimo.
Tanto o céu quanto o inferno, são estados de ânimo, que nós mesmos escolhemos em nosso dia-a-dia.
A cada instante somos mobilizados a tomar decisões que definirão o início do céu ou o começo do inferno. É como se todos fôssemos portadores de uma caixa invisível, onde houvesse ferramentas e materiais de primeiros socorros.
Diante de uma situação inesperada, podemos abri-la e lançar mão de qualquer dos objetos disponíveis em seu interior.
Assim, quando alguém nos ofende, podemos empunhar o martelo da ira ou usar o bálsamo da tolerância.
Atacados pela calúnia, podemos usar a foice do revide ou a pomada da autoconfiança.
Quando a injúria bater em nossa porta, podemos usar o aguilhão da vingança ou o óleo do perdão.
Diante de enfermidade inesperada, podemos lançar mão do ácido corrosivo da revolta ou empunhar o escudo da confiança.
Enfim, surpreendidos pelas mais diversas e infelizes situações, poderemos sempre optar por abrir fossos de incompreensão ou estender a ponte do diálogo que nos possibilite uma solução feliz.
A decisão depende sempre de nós mesmos.
Somente de nossa própria vontade decorrerá o nosso estado de ânimo.
Portanto, criar portais para o céu ou cavar abismos para o inferno em nosso íntimo, é algo que não depende de ninguém, pois somos os únicos responsáveis.


(A.D)

04 fevereiro 2011

Tenho saudades de que?

Tenho saudades de que?
Dos carinhos em profusão, dos beijos em conversação, das carícias ao pé do ouvido antes do sono chegar, agarrada ao teu corpo como se fôssemos uma extensão um do outro?
Tenho saudades de que?
De acordar ao teu lado, te abraçar apertado, de fazer café do jeito que a gente gostava, de ler o jornal, comentar as notícias, de te ver indignado com a violência do dia-a-dia, de te ver reclamando sempre que nosso time perdia?
Tenho saudades de que?
Das flores e jardins que vimos crescer?
Da casa que pintamos com todas as cores, dos móveis que restauramos, da horta que não cuidamos?
Tenho saudades de que?
Das nossas brigas, do cheiro do seu suor ao fazer amor, do jeito que chorava quando te consolava, do jeito que dizia me amar?
Não.Eu não tive a chance de viver nada disso.
Tenho saudades de que, então?
Talvez de quem eu era, do que eu sentia, do que eu sonhava, do que eu queria (tanto!), do que eu acreditava que seria possível...da banda de musica que passava por volta da meia-noite próximo ao natal, ou talvez da lua que olhamos um dia, ao mesmo tempo, mesmo na distância...
Tenho saudades de você?
Não exatamente, porque isto não seria possível.
O fato é que a lembrança da fantasia que criamos ainda me faz chorar.
O fato é que sinto saudades do que aconteceu apenas no meu coração, até mesmo quando minha alma descobriu que tudo não passou de ilusão.
Então...
Sinto saudades de um amor imenso nunca concretizado e massacrado pela espada da indiferença.
Existe dor maior?
Não sei, pra mim foi a pior.




Du

03 fevereiro 2011

Como todos não creio no que creio

Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca, é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me?
Sou quem todos são...
Modificar-me?
Para meu igual?...
- Acaba lá com isso, ó coração!


Fernando Pessoa

02 fevereiro 2011

SEDUZ-ME

Seduz-me com teu olhar
Assim faz me encantar
No encanto está a sedução
Ai se encontra o coração
No meio da decisão
Temos o amor entregue na mão
Seduz-me com teu lindo sorriso
Faz encontrar o meu paraíso
Atira-me um lindo beijo
Porque é esse o meu desejo
Fala-me amor
Tudo fica a nosso favor
Seduz-me com imaginação
Estarei a favor do teu perdão
Porque pecado feito de ilusão
Tem que lutar pela sua paixão
Seduz-me e não me esqueças
Diz meigas palavras
Diz novamente o meu segredo
Fala do meu corpo
Do meu cheiro
Do meu gosto
Do meu falar
Do meu amar
Meu medo
Seduz-me!
Faz-me sentir o amor
Tua paixão
Deixa-me sentir teu coração
Essa doce melodia
Fala rasga-me
Seduz-me todo dia
Mata nosso desejo
Na nossa cama, no nosso leito
Com essa nossa canção
Seduz me como uma poesia
Sente-me perto de ti
Seja noite ou dia
Não me esqueças
Envia-me beijos
Poemas e amor
Envia teu corpo
Mata esta dor da saudade
Para não me sentir só
Não libertes meu amor,
Tem dó.
Seduz-me com muito amor…

Sonho solitario

01 fevereiro 2011

Se pudéssemos escolher apenas uma alternativa...
O que seria mais importante?
Amar ou Ser Amado?
Por mais que pensemos...Fica realmente difícil encontrar uma resposta...
Mas podemos tentar...
Vamos presumir que a alternativa escolhida fosse Amar...
Como é bom Amar...
Sentir o coração bater mais forte...
As mãos frias e trêmulas...as pernas fracas...
O sorriso nos lábios...Sim, porque o sorriso faz parte do amor e como faz!
Quando amamos, temos o privilégio de sorrir mais...
Sorrimos até quando estamos parados, com o pensamento longe...
Sorrimos das próprias lembranças que esse amor nos traz...e muitas vezes, quando nos damos conta...
Estamos lá, não importa aonde...Mas estamos com o sorriso nos lábios...Até mesmo parados no farol a caminho de casa...No meio de um trabalho...
Quem estiver prestando atenção na gente... provavelmente não vai entender nada...
Mas, se essa pessoa também já amou alguma vez na sua vida...
Ah, com certeza vai entender porque estamos assim... e vai sorrir também só em lembrar como ela já ficou um dia por causa do amor...
Quando pensamos na pessoa amada,uma enorme sensação de leveza vai tomando conta do nosso corpo...Da nossa mente...da nossa alma...assim, sem pedir licença...
Mas é uma sensação tão maravilhosa que não importa, ela é tão boa que não precisa mesmo pedir licença...pode ir entrando e tomando conta do nosso ser...
Sensação de plenitude...
E, agora, vamos pensar na outra escolha...
Ser amado...Como é maravilhoso também saber que existe alguém que nos ama...
Que se importa conosco...Que se preocupa com tudo o que nos possa acontecer...Que teme que nos aconteça algo de errado...
A pessoa que nos ama está sempre vigilante...Tentando nos proteger de situações que poderiam nos machucar, e consequentemente machucar a esta pessoa também, sim, porque não podemos nos esquecer de tudo que foi dito anteriormente sobre amar...
Quando somos amados, se algo de errado nos acontece, o ser que nos ama sofre muito com isso, talvez sofra mais do que nós mesmos poderíamos sofrer...
O ideal seria escolher as duas alternativas Amar e Ser Amado, pois os dois sentimentos se completam
Mas, nem sempre é assim...
O ideal seria: Saber Amar e Ser Amado.
Mas isto é privilégio de poucos...talvez privilégio de quem já aprendeu muito com o amor, já cresceu muito com ele, e por isso talvez até consiga entende-lo melhor...
O ideal seria: Amar sem sufocar...
Amar sem aprisionar...Amar sem cobrar... Amar sem exigir...
Amar sem reprimir, simplesmente Amar...
E Ser Amado sem se sentir sufocado...Sem se sentir aprisionado...
Sem se sentir cobrado...Sem se sentir exigido...Sem se sentir reprimido Simplesmente Ser Amado!
Pois do que nos adiantaria Amar sem Ser Amado e Ser Amado sem Amar?


Gisilaine Andrade